Monumento ao Expedicionário

Cerimonia no monumento com tropas antes de partirem para o Haiti.

Estive lendo sobre ele nestas férias e resolvi escrever um post, até porque quase não há nada na internet falando sobre o assunto. Para mim, este é o monumento mais importante da cidade de Porto Alegre, mais até que o pomposo Laçador. O Monumento ao Expedicionário, ou mais conhecido como Arco da Redenção, é um memorial localizado no Parque Farroupilha em homenagem aos combatentes brasileiros mortos na Itália durante a Segunda Guerra Mundial. Certamente não é coincidência o fato de ambas obras serem do escultor Antônio Caringi.

A História toda começa em 1946 quando o jornal Correio do Povo lança a idéia de construção de um arco triunfal aos pracinhas. Foi feito um concurso entre doze projetistas, entre eles estavam Vasco Prado e Fernando Corona, dois artistas muito importantes da cidade. Fernando Corona também foi um notável historiador e crítico de arte, fazendo do evento um duelo de titãs. O juri era composto por cinco especialistas, um deles era o também historiador Francisco Riopardense de Macedo. É interessante notar a participação de tantos historiadores, talvez por isso essa História seja tão documentada.

O projeto vitorioso foi o “Altar da Pátria” de Antônio Caringi, que venceu com o júri dividido, pois parte dele não aceitou o projeto de arco duplo simétrico. Daí começou a polêmica. Revoltados, os membros do comitê artístico Tasso Corrêa e João Fahrion se retiraram da banca em protesto. Segundo o próprio Corona, que ficou em segundo colocado, isso se deve ao fato do regulamento ter estipulado que o projeto deveria ser um arco triunfal, contrário ao arco duplo de Caringi, apelidado de “arco do biunfo”. Outro opositor foi Riopardense de Macedo, que declarou:

Desde o primeiro, construído no tempo da República Romana, por L. Stertinius, no ano de 196 a.C., tem (o arco) gozado da preferência dos escultores para os grandes monumentos urbanos, inclusive quando a evocação nada tem a ver com vitórias militares, como é o caso do arco de Washington, concluído em 1895 na cidade de Nova Iorque […].Mas, na verdade, a maior parte deles foi construída para feitos de natureza militar, especialmente à época em que a guerra trazia benefícios de ordem econômica para as cidades[…]. Todos os arcos destacam apenas uma porta, e nunca mais que uma […], mas arcos de dois pórticos como o do Senhor Caringi a História da Arquitetura não registra, muito menos com duas portas iguais.

Macedo ainda prossegue, afirmando que outros dois arcos, o de Constantino 312 d.C. e o de John Nash de 1828 em Londres, possuem três portas mas destacam apenas a central, tendo as outras duas quase metade do tamanho para valorizar a principal. Sendo assim, um arco bipartido consistiria em um grave erro arquitetônico.

Arco de Constantino em Roma, 312 d.c.

Porém, o monumento de Caringi possui uma intenção. Seu objetivo é justamente a subversão contra o arco triunfal tradicional. O arco triunfal era usado nas comemorações romanas, quando o general e sua tropa desfilava na volta para a cidade trazendo os prisioneiros de guerra (escravos). Caringi propôs um arco duplo simétrico justamente para quebrar essa visão. Num arco bipartido, tanto generais, quanto soldados e prisioneiros tem uma passagem do mesmo tamanho, promovendo a igualdade entre todos.

As obras militares da antiguidade tinham como objetivo enaltecer a bravura contra o inimigo vencido e o objetivo de Caringi de mudar esta idéia é muito válida. As formas tradicionais de monumento público (eqüestre, obelisco e arco) por vezes carregam valores obsoletos que podem e devem ser renovados. E claro, toda mudança de regras está sujeita a rejeição e a História deste monumento mostra justamente isto.

Este arco mostra que da 2° Guerra Mundial não deveria sair vencedores nem

Arno Braker a direira e Hitler no centro em 1940, que coisa não?

derrotados. Devemos levar em conta que Caringi, que é de família italiana, viveu muitos anos na Alemanha durante os anos 20 e 30, onde estudou na Academia de Belas Artes de Munique. Também trabalhou no consulado italiano de Florença e no fim da década de 30 fez viagens pela Europa. Ele acompanhou o crescimento dos regimes autoritários que influenciou muito sua arte. Teve até aulas com Arno Braker, um dos principais escultores do 3° Reich. Antônio Caringi regressou ao Brasil em 1940. Portanto, ele conhecia muito bem os dois lados do conflito e talvez seja daí a inspiração para compor um monumento sobre igualdade.

A polêmica no concurso do memorial durou vários anos, o que atrasou muito a construção que foi concluída em 16/07/1957. Mas esta oposição é benéfica, pois ela é a principal prova da genialidade da obra. Toda inovação artística sofre rejeição e só conseguimos descobrir seu valor no futuro quando sua inovação passa a ser aceita e seguida, é o velho Zeitgeist mutante. Para falar a verdade, a polêmica do Arco do Expedicionário até hoje não está completamente resolvida, mas já existem outros monumentos ao redor do mundo com seu mesmo sentido. Um deles é o New York Veteran Memorial dos arquitetos Peter Wormser e William Fellows em homenagem aos veteranos do Vietnã. A obra não é um arco exato mas é muito próxima a proposta de Caringi, sendo composta de um bloco longituginal de porta dupla.

Memorial aos veteranos do Vietnã em Nova Iorque.

O Arco da Redenção também tem algumas curiosidades. Uma de suas

A contradição de Atena ou "bravura" pisando na cobra. Não estava prevista no projeto inicial.

composições é um pedestal com uma estátua de Atenas em bronze pisando na cabeça de uma cobra. É muito interessante as ondulações e detalhes dessa estátua, segundo escultor José Francisco Alves , a técnica desse efeito Caringi obteve da escola de Braker. Riopardense Macedo aponta aqui uma nova crítica, ele fala que estas representações de Atenas fazem apologia a guerra o que contradiz a função do monumento. E na minha opinião ele tem certa parcela de razão. Um outro historiador muito conceituado, Walter Spalding, justifica que aquela é uma figura feminina que representa a bravura dos combatentes brasileiros, e não a guerra. Ah! Eu não consigo olhar para a estátua e pensar isso, é inegável que aquela mulher de lança e escudo na mão é a deusa da guerra Atenas. Na minha concepção, só haveria contradição se a cobra representasse a Italia e Alemanha, mas não acho isso, para mim, a cobra representa o facismo -que deve ser mesmo pisoteado-.

Face leste a direita e oesta a esquerda. Seria esse relevo inspirado no monumento de Hamburgo?

Outra curiosidade é o relevo lateral do Arco. Há suspeitas de que ele tenha sido inspirado por um monumento em homenagem aos soldados do 76° regimento que lutaram na 1° Guerra Mundial, construído  na cidade de Hamburgo durante o regime nazista.

Hamburg Dammtor, homenagem ao 76° regimento.

Por fim, um monumento tão rico quanto o Monumento ao Expedicionário não merece ficar no estado de degradação que se encontra atualmente. É uma lastima vê-lo cheio de pichações e a mercê do vandalismo. Apesar deste abandono, ele é um monumento muito vivo. Fica em frente ao Colégio Militar e é o centro das comemorações da semana da pátria e outras eventos militares. Mesmo em datas não solenes, ele é muito integrado com a população, apesar de poucos conhecerem seu significado. Durante o fim de semana o Arco é o ponto de encontro vários grupos de jovens, principalmente dos Emos, o blog da redenção fala sobre isto. No blog da redenção vocês também podem ver fotos das maquetes dos comcorrentes. Os detalhes deste post eu encontrei no livro do José Francisco Alvez “História da Escultura Pública de Porto Alegre” que eu recomendo.

Anúncios

3 Comentários

  1. O cara fica meses sem dar as caras, quando aparece sai falando sem parar… Nem eu teria paciência de ler tudo isso.

  2. muito boa a pesquisa! muito legal.

    • que legal que alguém se interessou! hehe


Comments RSS TrackBack Identifier URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s